Capítulo 1 - Álgebra vectorial
1.1 Introdução
O eletromagnetismo é definido como o estudo das interações entre cargas elétricas, quer em repouso, quer em movimento. A disciplina envolve a análise, síntese, interpretação física e aplicação dos campos elétricos e magnéticos, constituindo um ramo essencial da física e da engenharia eletrotécnica.
Os princípios do eletromagnetismo têm aplicações em múltiplas áreas, como micro-ondas, antenas, comunicações por satélite, bioeletromagnetismo, plasmas, investigação nuclear, fibras óticas, compatibilidade eletromagnética, máquinas elétricas, conversão eletromecânica de energia, meteorologia por radar e deteção remota.
Exemplos práticos incluem:
-
Uso de micro-ondas ou ondas curtas na medicina para estimular tecidos e tratar certas condições;
-
Aquecimento indutivo para processos de fusão, forjamento ou soldadura;
-
Aquecimento dielétrico para unir plásticos;
-
Aplicações agrícolas, como a alteração do sabor de vegetais.
Os dispositivos eletromagnéticos mais comuns incluem transformadores, relés, motores, linhas de transmissão, guias de onda, antenas, fibras óticas, radares e lasers. O seu projeto requer conhecimento profundo das leis e princípios do eletromagnetismo.
O autor recorda que o comportamento eletromagnético pode ser descrito de forma compacta pelas Equações de Maxwell, que relacionam as grandezas vetoriais fundamentais: campo elétrico (E), campo magnético (H), densidade de fluxo elétrico (D), densidade de fluxo magnético (B), densidade de carga (ρv) e densidade de corrente (J).
1.2 Uma Antevisão do Livro
O livro está organizado em quatro partes principais:
-
Parte 1 – Introduz as ferramentas matemáticas necessárias, em particular a álgebra vetorial, já que as equações do eletromagnetismo envolvem grandezas vetoriais.
-
Parte 2 – Apresenta a dedução das equações de Maxwell em condições invariantes no tempo, bem como o significado físico das grandezas E, D, H, B, J e ρv.
-
Parte 3 – Explora aplicações dessas equações em situações práticas.
-
Parte 4 – Reexamina as equações no caso dependente do tempo e aplica-as a dispositivos como linhas de transmissão, guias de onda, antenas, fibras óticas e radares.
O objetivo é conduzir o leitor de uma base matemática sólida até às aplicações práticas modernas da teoria eletromagnética.
1.3 Escalares e Vetores
Esta secção introduz a análise vetorial como ferramenta matemática indispensável para descrever conceitos eletromagnéticos. Antes de a aplicar, é necessário compreender as suas regras e técnicas.
-
Escalares: grandezas totalmente descritas pela sua magnitude. Exemplos: tempo, massa, distância, temperatura, entropia, potencial elétrico, população.
-
Vetores: grandezas descritas por magnitude e direção no espaço. Exemplos: velocidade, força, aceleração, deslocamento, intensidade de campo elétrico.
-
Tensores: constituem uma classe mais geral de grandezas, da qual escalares e vetores são casos particulares (embora o livro se foque principalmente nestes últimos).
A notação distingue vetores de escalares:
-
Vetores: representados por letras com uma seta por cima (A→) ou a negrito (A).
-
Escalares: representados por letras normais (A, B, U, V).
Introduz-se ainda o conceito de campo:
-
Um campo é uma função que especifica um valor (escalar ou vetorial) em cada ponto de uma região do espaço (e possivelmente do tempo).
-
Campos escalares: temperatura num edifício, intensidade sonora numa sala, potencial elétrico, índice de refração.
-
Campos vetoriais: campo gravitacional, velocidade de gotas de chuva, campo elétrico.
A teoria do eletromagnetismo é essencialmente o estudo de campos elétricos e magnéticos que variam no espaço e no tempo.
1.4 Vetor Unitário
Um vetor é caracterizado pela sua magnitude e direção.
-
A magnitude de um vetor A é um escalar denotado por ou simplesmente A.
-
Um vetor unitário é definido como um vetor de magnitude igual a 1, que aponta na mesma direção de A. É escrito como:
Assim, qualquer vetor pode ser expresso como:
ou seja, magnitude multiplicada pelo vetor unitário que indica a sua direção.
Em coordenadas cartesianas, um vetor A pode ser representado de duas formas:
onde são os vetores unitários nas direções dos eixos x, y e z, respetivamente.
-
Estes vetores unitários são dimensionais, de magnitude 1, e indicam a direção positiva de cada eixo.
-
A magnitude de A é obtida pela fórmula pitagórica:
-
O vetor unitário na direção de A é:
Isto permite decompor qualquer vetor em componentes ao longo de cada eixo do sistema cartesiano.
1.5 Adição e Subtração de Vetores
Dois vetores podem ser somados ou subtraídos:
-
A soma de dois vetores resulta num vetor obtido somando as componentes correspondentes:
-
A diferença entre dois vetores é definida como:
Graficamente, estas operações podem ser representadas por dois métodos:
-
Regra do paralelogramo – constrói-se um paralelogramo com lados correspondentes a A e B; a diagonal representa a soma.
-
Regra cabeça-cauda – coloca-se a cabeça de um vetor na cauda do outro; o vetor resultante vai da cauda do primeiro até à cabeça do segundo.
Propriedades da adição e subtração de vetores:
-
Comutativa:
-
Associativa:
-
Distributiva: , onde é um escalar
Estas leis mostram que os vetores obedecem a regras algébricas semelhantes às dos números escalares.
1.6 Vetores de Posição e de Distância
Um ponto P no espaço cartesiano é representado por coordenadas .
-
O vetor de posição de P, denotado por , é o vetor que liga a origem a :
Este vetor indica a posição do ponto no espaço.
-
O vetor de distância (ou de deslocamento) entre dois pontos e é dado por:
A magnitude deste vetor corresponde à distância entre os dois pontos:
Diferença entre ponto e vetor:
-
Um ponto não é um vetor por si só; o que é vetor é o vetor de posição que liga a origem a esse ponto.
-
No entanto, um vetor pode depender da posição de um ponto (por exemplo, campos vetoriais).
Vetores constantes vs. variáveis:
-
Um vetor é constante (uniforme) se não depende de .
-
É variável (não uniforme) se os seus valores mudam de ponto para ponto.
Exemplo:
-
→ vetor uniforme.
-
→ vetor não uniforme.
1.7 Multiplicação de Vetores
A multiplicação de vetores pode produzir dois tipos de resultados: um escalar ou um vetor, dependendo da operação. Existem quatro formas principais:
(A) Produto Escalar (ou Produto Interno)
O produto escalar de dois vetores e é definido como:
onde é o ângulo entre os vetores. O resultado é um escalar.
-
Em termos de componentes:
-
Propriedades:
-
Comutativo:
-
Distributivo:
-
-
-
Dois vetores são ortogonais se .
(B) Produto Vetorial (ou produto externo)
O produto vetorial de e é um vetor definido por:
onde é o vetor unitário perpendicular ao plano formado por e , seguindo a regra da mão direita.
-
Em termos de determinante:
-
Propriedades:
-
Não comutativo:
-
Não associativo:
-
Distributivo:
-
-
Segue a regra cíclica: , , .
-
(C) Produto Triplo Escalar
Dado três vetores , define-se:
O resultado é um escalar, que corresponde ao volume do paralelepípedo formado pelos três vetores. Em forma de determinante:
(D) Produto Triplo Vetorial
Definido como:
Conhecido como a regra “bac-cab”. O resultado é um vetor.
1.8 Componentes de um Vetor
O produto escalar pode ser usado para calcular a projeção (ou componente) de um vetor numa direção:
-
Componente escalar de ao longo de :
onde é o vetor unitário na direção de .
-
Componente vetorial de ao longo de :
Assim, qualquer vetor pode ser decomposto em duas componentes ortogonais:
-
uma paralela a ,
-
outra perpendicular a .
Observação importante: a divisão de vetores não é definida em geral, exceto quando . Diferenciação e integração de vetores serão estudadas mais tarde.
Resumo
A secção final do capítulo sintetiza os conceitos apresentados:
-
Um campo é uma função que especifica uma quantidade em cada ponto do espaço. Pode ser escalar (ex.: ) ou vetorial (ex.: ).
-
Um vetor é especificado pela sua magnitude e pelo vetor unitário na sua direção ().
-
A multiplicação de dois vetores pode resultar em:
-
um escalar (produto escalar: ),
-
ou um vetor (produto vetorial: ).
A multiplicação de três vetores pode originar: -
um escalar (),
-
ou um vetor ().
-
-
A projeção escalar de em é . A projeção vetorial é .
-
O capítulo inclui ainda comandos MATLAB úteis:
-
dot(A,B)
para produto escalar; -
cross(A,B)
para produto vetorial; -
norm(A)
para magnitude; -
A/norm(A)
para vetor unitário.
-